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Análise de conjuntura e formação de um novo projeto de país: veja destaques da palestra de Leonardo Boff durante o 3º Encontro Interconselhos

2 de Agosto de 2017, 0:00 , por Karla Miranda - 0sem comentários ainda
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Licenciado sob CC (by)

“Não queria deixar de saudar especialmente o grupo dos direitos humanos, também as comunidades de base. Meu irmão, Frei Clodovis – um dos que mais entende de comunidade de base – considera as mais adiantadas do Brasil, porque elas têm sua relativa autonomia, se articulam entre elas, e ele sempre fala das comunidades de base daqui do Maranhão”, disse o professor, escritor e teólogo Leonardo Boff logo no início de sua palestra já demarcando a importância que a articulação e o trabalho junto ao povo possuem para encontrar uma saída positiva para o país.

A palestra “A participação popular frente à conjuntura nacional e regional: desafios e perspectivas” aconteceu no 3º Encontro Interconselhos do Maranhão, realizado nesta terça-feira (1º), no Auditório Fernando Falcão da Assembleia Legislativa do Maranhão, para um público de 472 pessoas. A promoção do Encontro foi do Governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop), em parceria com o Fórum Estadual Interconselhos.

Inicialmente, Boff falou da conjuntura nacional, fazendo uma relação dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), passando pelo impedimento de Dilma Rousseff e chegando às interferências dos Estados Unidos da América (EUA) junto aos países latinoamericanos, como o Brasil. Disse que a crise não é esporádica e deriva da lógica da dominação das elites. “Por que houve esse golpe? Eles se deram conta que as políticas sociais que os dois governos do PT estavam estabelecendo no Brasil com uma grande inclusão social estavam ganhando autonomia, estavam se solidificando e isso eles não permitiam”.

“Eles”, apontados por Boff, são as elites. “O número exato pelo IPEA é 77.440 super milionários que controlam grande parte da riqueza financeira brasileira, que controlam as políticas econômicas, as taxas de juros. Esses que dominam vêm da casa grande e fundaram a oligarquia brasileira pelo instituto do patrimonialismo”. Por diversas vezes o teólogo trouxe referências à relação casa grande x senzala. Citou três fatos históricos brasileiros que impuseram o ato da violência no Estado: o genocídio indígena, a escravidão e a colonização. Segundo o escritor, são sombras que perduram até hoje e cujos efeitos corroboram para termos o atual cenário negativo.

Chamou a atenção do público para que nenhuma análise sobre o país deixe de considerar a sua posição no cenário mundial. “O Brasil é a 7ª economia do mundo; então em termos geopolíticos, o Brasil pesa muito. É o momento da nova guerra fria, que se estabelece com os EUA não contra a Rússia, mas EUA e China. A China pertence ao BRICS [grupo BRICS: Brasil, Rússia, Índia e China], que são o contraponto aos EUA”. Para melhor compreensão, sugeriu a leitura do livro A desordem mundial, de Moniz Bandeira, que detalha os grupos norte-americanos agindo no Brasil seguindo estratégias do Pentágono.

Após apresentar estes cenários, o teólogo focou na importância da ação popular e da articulação política. Aos conselheiros e conselheiras presentes, além de diversas lideranças políticas, religiosas e de movimentos sociais, Boff fez um alerta evocando os ensinamentos do Papa Francisco quando recomendou a não se esperar nada de cima, pois só irão encontrar mais dominação e mais exploração.

“Comecem vocês mesmos inaugurando o novo, uma nova democracia participativa. Se o sistema só conhece a concorrência, vocês põem a cooperação. Se eles têm as grandes empresas, vocês comecem com as empresas familiares, as pequenas de autossustentação. Comecem criando redes de comunidades, redes de movimentos sociais que vocês vão criando uma força poderosa com outros aliados que se incorporam, criar uma grande frente de base popular, de oposição ao que está aí”.

Para essa ampla base social e formação de um novo projeto de nação, Boff espera que os direitos da Terra não sejam esquecidos. “Eu acabo de ler um jornal dizendo que amanhã, dia 2 de agosto, é o dia da sobrecarga da Terra. Isto é: Terra com tudo aquilo que ela tem, com seus capitais, ela pode nos atender até o dia 2 de agosto. Estamos hoje no, digamos, verde, a partir de amanhã entramos no vermelho”, frisou.

Neste novo projeto de país, acredita que podemos criar uma civilização “centrada na vida e não meramente no crescimento material, de bens materiais apropriados só por alguns, mas no desenvolvimento humano, onde a economia, a política estão à serviço do bem-estar das pessoas”.

Acredita que a crise revelará quais são os sujeitos novos que vão dar uma cara nova ao Brasil. “Desta vez não serão os velhos da casa grande, mas seremos nós, daqui debaixo, desta vasta população que lentamente foi criando os seus movimentos sociais, os seus conselhos, cuidando das várias chagas e feridas do povo, porque, se olharmos bem, cada movimento social é a defesa de um direito que é negado pelo Estado, pela ordem dominante”.

Lembrou, durante o debate com o público, que a lógica de poder das elites só tolera os conselhos setoriais e de direitos por estarem na Constituição. “[O conselho] é um elemento anti-sistêmico, é o povo que participa. Eles têm pavor de alguém que pensa e que reclama direito. O conselho é um espaço onde a população pode falar, pode formular questões para o estado estabelecido”, argumentou. Também aos conselheiros(a) e lideranças sociais pediu que busquem ter uma visão mais global e que lembrem que os problemas são da população e não de suas respectivas entidades e órgãos.

Em suas considerações finais, afirmou seu posicionamento contrário às atuais políticas federais: “não aceitamos as novas leis trabalhistas, da aposentadoria, a fragmentação do trabalho, a precarização, não aceitamos”. Foi enfático ao dizer que “se o povo ficar de fora, nenhuma política será sã”.

Finalizou pedindo a todos que tenham esperança para criar um Brasil que se tenha orgulho de viver.

Leia também: Participação popular norteia debate no 3° Interconselhos do Maranhão (abre nova aba). 

 

Confira galeria de imagem (abre nova aba).

 

Municípios presentes: Caxias, São Luís, Açailândia, Buriticupu, Barreirinhas, São Vicente de Férrer, São João Batista, Cedral, Bacabal, São José de Ribamar, Matões do Norte, Coroatá, Pinheiro, Santa Luzia, Paço do Lumiar, Cururupu e Grajaú.

Lideranças e organizações presentes: Conselho Nacional de Saúde; conselhos estaduais de Educação, de Políticas de Pessoa com Deficiência, dos Direitos da Pessoa Idosa, de Saúde, da Criança e do Adolescente, LGBT, das Cidades, da Mulher, dos Direitos Humanos, do Meio Ambiente, da Cultura, da Igualdade Racial, de Assistência Social, de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, Segurança Alimentar e Nutricional; conselhos municipais de Educação, de Mulheres de Matões do Norte, de Saúde, de Educação de Buriticupu, dos Direitos Humanos de Açailândia, de Saúde de São Luís; Sindicato de Assistentes Sociais do Estado do Maranhão; Sindicato dos Funcionários Público do Maranhão; Colegiado Estadual de Gestores Municipais de Assistência Social; União dos Conselhos Municipais de Educação; Associação de Conselheiros e ex-Conselheiros Tutelares do Estado do Maranhão; professores universitários; lideranças ligadas à Igreja Católica.


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Participação Popular, Fórum Interconselhos

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